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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

História das Histórias em Quadrinhos de Terror no Brasil - Anos 1970

     





Depois da primeira e fascinante parte dessa incrível história -
https://museucoffinsouza.blogspot.com/2024/03/historia-dos-quadrinhos-de-terror-no.html



Voltamos...



No começo de 1970, a editora Graúna (fundada em 1967 por um grupo de jornalistas) lançou uma revista com o nome "Aventurama", que intercalava títulos diferentes (de aventuras infantis, super-heróis e terror) em seus números. 

A coleção teve 25 números publicados até 1973. Os números de 'Aventurama Apresenta', alternaram os gibis de terror- "Dr. Satan",  "Alma Penada",  "Mestres do Terror", e "Ecos do Castelo Mal Assombrado", e "Terror"...










...com personagens como "Hércules" ( da Charlton Comics) e "Besouro Negro" (nome dado ao super herói de Steve Ditko Blue Beetle!) , além de  páginas de passatempos feitas pelo estúdio de Maurício de Sousa.




                       

      Brasil - O Terror da Ditadura...

Após a Era de Ouro do terror nos quadrinhos brasileiros durante as décadas de 1950 e 1960, o início da década de 1970 foi marcado pelo horror verdadeiro da ditadura militar. A partir de 1972, os censores da ditadura passaram a examinar as revistas de terror antes de sua veiculação. O regime proibiu termos e críticas a autoridades, vetando tramas que pudessem levar a questionamentos de policiais, juízes ou militares. Assim como aconteceu na música, cinema e literatura da época, os autores tiveram que criar alegorias sobre a violência do Estado. Nos quadrinhos, alguns roteiristas e desenhistas usaram o gênero fantástico, os monstros e climas macabros para refletir o horror da opressão, da tortura e do autoritarismo. 




Editoras nacionais independentes que apostavam em conteúdo local forte, como a Edrel e a Taika, sofreram com o cerco econômico, multas e apreensões impostos pelo regime. Miguel Penteado, grande ilustrador, co-fundador da Continental e dono da GEP (Gráfica Editora Penteado), foi chamado para na polícia para dar explicações. "Pôs o pé no freio e fez com que outros também o seguissem, diminuindo ainda mais o mercado para os quadrinhos nacionais, já que, apesar de haver outros gêneros, o que vendia para valer era o terror", explica o roteirista Antonio 'Toni' Rodrigues.



A Edrel lançou no começo de 1970 , 3 almanaques diferentes, mas com títulos praticamente iguais - "Almanaque Terror Especial 1970", "Almanaque Terror Especial" e "Almanaque Revista de Terror 1970"...misturando histórias em reprise, e novas...





O empresário, ilustrador e editor José Sidekerskis (o 'JS', ou 'Zelão', um dos ex-sócios da editora Outubro) fundou em 1971, a Editora Regiart, iniciando com quadrinhos infantis e faroeste, mas logo passando a lançar títulos de terror. A revista de maior duração  foi "O Vampiro" (11 números ,1 almanaque e um especial, entre 1972-73)...




...  uma revista antológica de histórias de terror e contos macabros que reunia os principais autores da casa ( Eugenio Colonnese, Gedeone Malagola, Júlio Shimamoto, Paulo Hamasaki, e outros), e também republicava material da revista homônima da extinta Editora Jotaeese (iniciais de José Sidekerskis, que havia fechado em 1971), dos anos 60 .



 A Regiart, também republicou edições de "Mirza, Mulher Vampiro" de 1967/68,da Jotaesse. As 6 edições foram lançadas no ano de 1973/74, sem a autorização de Colonnese, que na época se dedica a ilustrar livros didáticos, mas, José Sidekerskis havia sido o primeiro editor do título ...




No início de 1973 a editora lançou os dois únicos números de “Vamp, a Mulher Demônio”, com roteiro e arte de Paulo Hamasaki (1941/2015).




Aproveitando a moda de personagens vampiras femininas como Mirza, Naiara (de Edmundo Rodrigues) e a norte-americana Vampirella, Hamasaki  inovou e transformou sua 'Vamp 'em uma madame milionária e psicopata, que acaba chamando atenção do próprio Rei dos Demônios, que a escolhe como companheira, e líder de um exército de monstros...




A Regiart também publicou "Contos Magazine", uma revista que combinava contos ilustrados e quadrinhos de suspense e terror... 




...e "Fantásticas Aventuras", com HQs de sci-fi e suspense , da antiga editora americana Atlas Comics...depois...Marvel...





 O desenhista e editor Minami Keizi (1945-2009), saiu da Editora Edrel, e fundou com Carlos 'Carlito' Cunha (1936- ), a M&C (Minami & Cunha). A M&C foi  a primeira editora brasileira a publicar os quadrinhos de “Conan, o Bárbaro” (1972), e comprou todos os diretos das revistas da GEP,  publicando assim - "Calafrio" (1970, edição única)...




..."Enigma" (1972-1973)...




 ... “Lobisomem O Demônio da Noite” (1972-1973), “Múmia”, “5a. Dimensão”, “Dr. Mistério” (o Dr. Estranho / Dr. Strange da Marvel), etc.






 Gedeone Malagola, o autor de “Lobisomem” e “Múmia” na antiga GEP, escreveu novas histórias para ambas as séries. Mas, Sérgio Lima, o desenhista original das duas, não se interessou por desenhá-las ( foi desenhar as bruxas Maga Patalójika e Madame Min, para a Abril), assim, Nico Rosso assumiu (de forma brilhante) os desenhos da série Lobisomem...






...e Ignácio Justo passou a fazer a arte para a Múmia.






Um personagem que começou aparecendo em histórias secundárias nessas revistas, logo fez sucesso e ganhou  um título próprio - "Chico de Ogum"...






Criado por Carlos Cunha em 1971, com desenhos (bem humorados) de Nico Rosso e Kazuhiko Yoshikawa, o personagem era um babalorixá e médium que conseguia sair do corpo e assumir uma forma astral, ganhando assim força sobre-humana e a capacidade de atravessar paredes e objetos sólidos para combater o mal, e ajudar os outros.




 Um 'super herói' bem brasileiro, com histórias de realismo fantástico, onde conviviam marginais brasileiros, e criaturas fantásticas e monstros. Um verdadeiro clássico vanguardista da HQ nacional.



Também foi criada a 'revolucionária' revista “HQ Competição” (1972-1973), onde os editores, estimulavam os desenhistas amadores a enviar seus trabalhos. As HQs selecionadas eram repassadas para algum dos desenhistas profissionais do staff da editora, que redesenhavam a HQ enviada, dando dicas para os autores novatos sobre como criar uma história em quadrinhos. Tanto a HQ original amadora quanto a nova versão profissional eram publicadas, para efeito de comparações e estímulo...





Entre 1972 e 1976, vários artistas se desviaram para outras áreas. Eugênio Colonnese ilustrou muitos livros didáticos; Rubens Cordeiro e Rodolfo Zalla passaram a desenhar o "Zorro" para as revistas Disney da Editora Abril. E outros seguiram caminhos diversos, principalmente a publicidade.





Os irmãos Laurindo e Edson Kuasne fundaram em 1973, a pequena editora Maravilha em São Paulo. Todas as suas revistas eram quadrinhos  de terror, e apenas "Terror em Quadrinhos" (1973) durou cinco edições...




...os outros títulos foram edições únicas, como "Contos do Além" e "Domínio das Trevas", além de três almanaques com reimpressões.





'Misteriosamente' todas as revistas traziam anúncios dos livros da editora carioca Gorrion na contracapa, sugerindo uma parceria inédita entre competidores, ou que a obscura editora fosse 'um braço' da Gorrion em sampa, já que o material publicado era muito parecido...mistérios...mistérios...




A Editora Taika ainda publicava várias revistas, como o "Album Clássicos de Terror 2ª Série" (1973-1976) ,quase somente com reprises, nada que lembrasse seu período mais produtivo e criativo. 




As vendas foram caindo paulatinamente e a apresentação gráfica das revistas começou a destoar das concorrentes. As revistas da Taika estavam entre as mais pobres e feias, apesar de não serem as mais baratas. 

A lendária Taika, sobreviveu até 1978, e antes, através dos selos 'Edital', e 'Spell', tentou o sucesso, lançando seis álbuns luxuosos de Nico Rosso.

 "Coleção Contos de Terror" (Edição Especial- Seleções de Terror Apresentam, 1973)...




...álbum de luxo com 10 HQs de Nico Rosso/Lucchetti, entre reprises dos anos 60, e inéditas...




Sua última revista de reprises "Terror Nostalgia" ... "Coleção Terror Nostalgia - Drácula — Edição Encadernada" (1976)...




... duas luxuosas edições encadernadas, com lombada quadrada, reunindo as histórias do Drácula desenhadas por Nico Rosso e escritas por R.F. Lucchetti...




Duas edições em preto e branco da mesma dupla, em 'formatinho', mas com 200 páginas (!) - "O Filho de Satã"...



...com o personagem do cientista louco 'Dr. Zola', publicado originalmente pela Taika em 1970, em um volume mais simples...





 ...e "Horror" (1976), com duas histórias - "Carne Fresca para a Mesa", e "Os Vampiros não fazem Sexo"...




...e uma outra edição de luxo , com desenhos de Rosso, mas roteiros de Maria Aparecida Godoy , chamada “Drácula” (1976)...




...com uma história em 3 partes, chamada "O Príncipe", contando uma origem satânica para o personagem, e uma HQ colorida de 8 páginas, "A Virgem de Orleans"...




Mesmo com o declínio do terror, outras pequenas editoras continuaram investindo no segmento, como a paulista O Livreiro, do editor Horley Chiodi, que publicou "Lendas Sinistras" (1970-1971), "Histórias de Pavor" ( 1970), "Terror Ilustrado" (1970)...



..."Terror Magazine", "Super-Ficção" e "Histórias Horripilantes"...




Seu principal desenhista era Edmundo Rodrigues que, na época, produzia sozinho, quatro revistas mensais de quadrinhos, e uma extra de palavras cruzadas.




 
Depois de sair da Edrel, Salvador Bentivegna fundou a Editora Roval, e publicou "Jacó Wizard, O Feiticeiro" (1972-1973)...




...um anti-herói bruxo imortal, e seu gato preto Gazam, com argumento de Ivan Saidenberg, e desenhos de Moacir Rodrigues...




... "Lua Cheia" (1973), "Terror Macabro" (1973-1975), "Estorias de Terror" (1973), "Maldita Múmia", "Sombras na Noite",  "Caldeirão  da Bruxa" (1974), e "Eu Sou o Pavor" (1974)...






Devido a problemas de contabilidade, a Roval foi encerrada e substituída pela Editora Kultus, que continuou alguns títulos como "Estorias de Terror", "Exu", e "Eu Sou o Pavor".




 De qualquer forma, a linha editorial de Bentivegna era uma 'bagunça', misturando terror, e aventuras de super-heróis em um mesmo título. A Kultus no entanto , foi a primeira editora nacional a publicar uma revista com a personagem clássica "Vampirella" (1973, 4 números e um especial), a sensual vampira alienígena criada em 1969 por Tom Sutton.
  



A minúscula editora carioca Gorrion, se destacou na época por lançar uma grande quantidade de títulos mensalmente, de humor, aventura, super-heróis (Marvel), e terror. Os títulos 'macabros' foram - "Doutor Frankenstein" , " Terror Alucinante" , "Terror Século XX", "A Mulher-Lobo", "Terror Macabro", "Almanaque Terror ", "Terror 'Treze' ", e "Sobrenatural"...










As revistas da Gorrion (todas entre 1973-1975) eram impressas em papel de baixa qualidade, e geralmente na cor azul...




...contrastando com seu preço, que era acima da média...  




A Editora Edrel continuou com sua "Revista de Terror", publicada desde 1969, e por motivos comerciais, primeiro passou a estampar fotos de mulheres semi-nuas nas capas...




...e depois a renomeando de "Nova Revista de Terror", mas mantendo a mesma linha editorial, com histórias de terror mais 'psicológicas, e continuando sua numeração.




Paulo Fukue sucedeu Minami Keizi na Edrel, mas deixou o cargo após enfrentar problemas com a Polícia Federal. Meses depois, foi a vez do outro fundador, Jinki Yamamoto. Isso marcou o início do declínio da editora. Depois de publicar alguns especiais de terror como "Ópera de Horrores", "Nostradamus"...




... e um "Almanaque Terror", com 100 páginas, encadernando encalhes da bancas. A Edrel encerrou suas atividades em 1975. 




Em 1975  Domingo Alzugaray , Cláudio de Souza, e um grupo de ex-funcionários da Editora Abril, fundaram a Editora Ideia Editorial, totalmente dedicada aos quadrinhos. Em 1976, a editora lançou a serie "Um Passo Além", que intercalava os títulos "Histórias de Boris Karloff", com capas do grande Jayme Cortez, mas material da revista americana "Boris Karloff Tales of Mystery" (1963) da  Western Publishing Co. 




...e "Histórias da 5a. Dimensão" , e "Histórias Inacreditáveis", mais na linha de suspense de sci-fi. 



Com o começo da Abertura Política e o afrouxamento da censura, um novo 'boom' de quadrinhos de terror iniciou no Brasil.  




Em 1976, a RGE (Rio Gráfica Editora, fundada por Roberto Marinho em 1952) invadiu as bancas brasileiras com um fenômeno chamado "Kripta"...




 A totalidade das histórias e do material publicado provinham das revistas americanas "Creepy" e "Eerie", da Warren Publishing. com quadrinhos de primeira linha, de autores consagrados, como José Ortiz, Esteban Maroto, Frank Miller, Rafael Auraleon, Tom Sutton, Vicente Alcazar, Gonzalo Mayo, Alex Toth, Neal Adams, Bruce Jones, Bernie Wrightson e Luiz Bermejo, dentre outros, e textos de Budd Lewis, Doug Moench, Archie Goodwin etc.






Comerciais de TV, e propagandas em jornais anunciavam a publicação, finalizando com a frase "Com Kripta, todo dia é sexta-feira, toda hora é meia-noite". 




 Foi um sucesso estrondoso, rendeu 60 números (1976-1981), diversos almanaques, volumes especiais e gerou a revista 'irmã'  "Shock" (1977- 1978 ).







A Bloch Editores começou, então, a lançar toda a linha de horror da Marvel Comics, dentro de seu selo chamado 'Capitão Mistério'... 

inundando as bancas brasileiras com os títulos: "A Tumba de Drácula" (The Tomb of Dracula), "O Lobisomem" (Werewolf by Night), "Frankenstein" (Frankenstein), "A Múmia Viva" (Supernatural Thrillers Featuring The Living Mummy), "Motoqueiro Fantasma" (Ghost Rider)...












...



...além de "Aventuras Macabras", "Sexta-Feira 13", "Cine-Mistério", "Clássicos do Pavor", e "Histórias Fantásticas"...








As revistas também publicavam contos de terror, artigos sobre filmes e atores do gênero, biografias de escritores, curiosidades sobre o sobrenatural, e as páginas centrais sempre traziam um poster. Pelo lado negativo, como acontecia em todas as revistas da Bloch, a cronologia dos personagens fixos (Frankenstein, Drácula, etc.) não era respeitada, e a parte gráfica era 'um horror', com cores berrantes, primárias, e que alteravam (muito) a arte original...







Joseph Abourbih, um egípcio radicado no Brasil desde o final dos anos 60, fundou a Editora Noblet em 1971. A editora contava com gráfica própria e prestava serviços para terceiros. A Noblet publicou quadrinhos de aventura e faroeste, principalmente de origem italiana, como "Akim", e "Carabina Slim". Em 1977, lançou a segunda série de "Vampirella" publicada no Brasil...




... publicada no formato original (magazine, 21 x 28 cm, em p&b), e que durou 10 números, até 1978. 





Já a Ebal voltou com as histórias do segmento criadas pela DC Comics, publicando em 'formatinho' colorido, o título  "Histórias de Assombração" (Misterinho  2ª Série), entre 1977 e 1981.




...com material originalmente publicado nas revistas " Secrets of Sinister House", "Phantom Stranger", " Forbidden Tales of Dark Mansion ", e outras...





A Editora Vecchi ( fundada em 1913, pelo imigrante italiano Arturo Vecchi, que vinha de uma tradicional família do mercado editorial de seu país) publicou então, em janeiro de 1977, a 'revolucionária' revista "As Histórias Sobrenaturais do DR. SPEKTRO". 




Em 'formatinho', e em p&b, mas com 196 páginas com lombada quadrada, apresentando o personagem Dr. Spektor ( da editora norte-americana Gold Key Comics), que narrava casos de seus arquivos secretos ligados ao 'insólito e ao sobrenatural'. Como o número de histórias do personagem era pequeno e a repercussão entre os leitores foi positiva, a partir da segunda edição, foram adicionadas histórias da editora Fawcett ('Dr. Morte' e' Dr. Mistério') e republicações de material brasileiro da década de 1960, principalmente da Editora Outubro, de autores renomados como Jayme Cortez, Flavio Colin, e Júlio Shimamoto, e a revista passou a se chamar apenas "Spektro". 




A terceira edição apresentou uma matéria sobre quadrinhos nacionais, e repercussão foi grande. As histórias criadas no Brasil foram ocupando mais e mais lugar na revista, e no número 5 (um especial sobre Vampiros) já tomavam quase todo o seu espaço. Ao lado dos veteranos Shimamoto, Colin, Jayme Cortez, Nico Rosso e R.F.Lucchetti, começaram novos talentos, como a dupla Ataíde Braz (roteirista) e Roberto Kussumoto, Watson Portela, Ofeliano de Almeida, Mozart Couto, Elmano Silva 'Mano', Júlio Emílio Braz...



...além de Zenival, Cesar Lobo, Olendino Mendes, E.C. (Eloir Carlos) Nickel, Antonino Homobono, entre muitos outros! A "Spektro" publicou algumas das mais conceituadas e populares séries de terror brasileiras: a cômica e sangrenta  "Hotel Nicanor", criação de 'Juka Galvão' ( o próprio Ota), com desenhos excelentes de Flavio Colin...


 

..." Silas Verdugo, O Homem do Patuá", de Elmano Silva ( parte do 'Trio diabólico', junto com Sinhá Preta, e O Filho de Satã ), "Jesuíno Boamorte",escrita por Júlio Emílio Braz e ilustrado por Zenival Ferraz ; além da famosa série de fantasia e sci-fi 'surreal' e erótica, "Paralelas", de Watson Portela.





O editor responsável Otacílio D’Assunção Barros, ( o também cartunista Ota - 1954-2021),estabeleceu um padrão exigente como nunca havia se visto antes em revista de terror do pais, e chegou a vender, em seu apogeu, mais de 40.000 exemplares, além de provocar o lançamento de 'filhotes': "Pesadelo" (11 números entre 1980 e 1982), nos mesmos moldes e formato da "Spektro"...







.. e as mais modestas (mas também populares) "Sobrenatural" (38 números entre 1979 e 1982) e "Histórias do Além" (20 números entre 1979 e 1981)...







... além de "Almanaque de Terror", e "Almanaque de Assombrações", que serviam para escoar as histórias consideradas inferiores, dos carros-chefes "Spektro" e "Pesadelo", material que sobrou, testes e até mesmo material de artistas novatos.





Nas histórias produzidas pelos artistas nacionais da "Spektro" e "Pesadelo, temas e personagens do terror clássico — como vampiros, bruxas e lobisomens — coexistiam com criaturas e cenários tipicamente brasileiros. Havia contos sobre caipiras, cangaceiros e jagunços; histórias ambientadas no sertão nordestino, em Pernambuco na época colonial, ou no interior da Amazônia durante a época dos bandeirantes; e narrativas que envolviam a Macumba e lendas indígenas.




Seres sobrenaturais do folclore , como a Boiuna, o Mapinguari, o Papa-Figo, o Caipora, e a Besta-Fera, além de demônios, diversas assombrações, e encarnações nacionais variadas do capeta, faziam os leitores sentirem uma forte conexão com as revistas.




Em tempo da ditadura militar, dos 'Anos de Chumbo', da censura prévia, dos esquadrões da morte, torturas e desaparecimentos, os autores ousavam, explorando temas como a violência urbana, drogas, corrupção, etc. 

"Sessão de Tortura" , escrita por Maria Emília, e desenhada por Shimamoto, foi publicada na "Spektro número 18 ,em 1980. Dois cruéis torturadores se deparam com as almas dos 'frouxos' que morreram rápido. Eles estão em um bar e somente eles enxergam os fantasmas diante de pessoas que temem chamar a polícia por eles serem...policiais.


Na "Spektro" # 26 (fevereiro de 1982) foi publicada em 3 partes (56 páginas no total), a história "O Ditador Frankenstein", com roteiro de Luiz Antonio Farah de Aguiar, e arte de Julio Shimamoto . 



Numa ditadura militar da América Latina, três generais se submetem aos experimentos do doutor Kaus. Assim, partes deles são implantadas num corpo que será reanimado e mantido vivo artificialmente por sessões de choques elétricos, para criar um ditador imortal...


Em 1969, o quadrinista Julio Shimamoto sumiu durante 18 dias, e nem amigos e familiares  tiveram notícias, ou souberam o paradeiro do artista. Ele fora visto pela última vez saindo para seu horário de almoço na agência de publicidade na qual trabalhava, em São Paulo. Abordado por dois agentes federais, foi colocado em um camburão, e jogado numa cela suja, sem água, sem leito, sem vaso na privada (apenas um buraco sobre o esgoto), e uma única refeição minguada por dia. A motivação por trás da prisão de Shimamoto foi a presença de seu nome em uma lista de amigos e colegas  que doaram dinheiro para um publicitário exilado na Europa. As lembranças e os traumas que Shima tem desse período foram representados graficamente pelo artista, por meio de seu traço, em diversas histórias em quadrinhos...





Em fins dos anos 1970, a Bloch perdeu o direito de uso das licenças da Marvel. Isso foi um golpe pesado para a editora, visto que os títulos de terror  vendiam bem e, dentre eles, o Lobisomem era um de seus carros chefes. Assim, para não perder o filão, os editores tomaram uma iniciativa tanto ousada quanto original: manter a revista e as histórias, mas mudando a equipe criativa e os personagens. A edição 13 do "Lobisomem" (dezembro de 1978) foi marcada por grandes mudanças...




O protagonista original, Jack Russel, dá lugar ao seu equivalente brasileiro, 'Tab Russell', ao mesmo tempo em que a equipe criativa americana foi substituída por Flávio Colin (1930-2002), que assumiu a arte, e possivelmente os roteiros da revista. O Lobisomem de Colin seguiu um caminho completamente diferente do original. 




Dono de um traço bastante estilizado, o artista garantiu ao seu monstro um ar próprio e genuinamente brasileiro, com um cenário sul americano, muita ação, e sensualidade...





Em 1979, a RGE lançou o selo "Kripta Apresenta", com 3 revistas coloridas e em formatinho, com material da editora americana Charlton Comics-  "Panico" (Material original da "Scary Tales") , "Fetiche" (material da revista "Haunted)...







... e "Dr. Corvus" (material da Midnight Tales")...


 
...todas com histórias curtas (entre 3 e 6 páginas), bastantes inferiores a da 'revista Mãe', assim como o título de exemplar único "As Seleções de Terror", lançada um pouco depois no mesmo ano.



O jornalista, escritor e historiador Hélio Porto,  abriu em 1978 a Editora Argos. Porto queria lançar uma coleção dedicada à 'nostalgia gráfica' nacional, como descreve em seu editorial de" O Grande Livro do Terror" (fevereiro de 1978, número único). 




Nas 128 páginas da revista em tamanho grande, desfilaram quadrinhos de Sérgio Lima, Julio Shimamoto, Flavio Colin, Jayme Cortez, o veterano desenhista português Eduardo Teixeira Coelho, e a estreia de Freddy Galan, um desenhista chileno que fez algum sucesso por aqui na época. Além de matérias sobre cinema de terror, dicas do mestre Jayme Cortez, cartazes dos filmes de José Mojica Marins, um conto e o perfil do escritor e roteirista R. F. Lucchetti, e entrevistas e perfis dos artistas convidados!





Convidado por Hélio Porto, Rudolf Piper (empresário de shows, e pesquisador de cinema e quadrinhos do Brasil) fez o maior levantamento sobre o gênero nos quadrinhos do país até então -  todas as revistas, desde "Terror Negro" até a edição da Argos, foram listadas... 



...num trabalho de pesquisa pioneiro, e muito antes da internet, e livros sobre o tema...




A poderosa Editora Abril, publicou milhares de títulos de HQs em sua historia (basicamente infantis, principalmente da Walt Disney), mas muito pouco de terror. No entanto, em junho de 1979, quando compraram os direitos dos personagens da Marvel Comics, foi lançada a revista "Terror de Drácula" (11 números 1979/1980)...




...a "Tomb of Dracula"a versão Marvel do 'Senhor dos Vampiros' , antes publicada pela Bloch. Seguindo o tamanho formatinho, mas bem editada, a revista vendia bem, mas foi cancelada (dizem), simplesmente porque Victor Civita (o fundador da editora) não gostava do gênero e, por isso, deu ordens expressas para tirá-la de circulação!!





A Ebal publicou "O Monstro do Pântano" (na série 'Estréia Apresenta',  com 13 números entre 1979 e 1980), em formatinho colorido...



...apresentando o trágico e monstruoso personagem da DC, 'Swamp Thing', com roteiros de Len Wein e a arte primorosa de Berni Wrightson, e posteriormente, de Nestor Redondo...





Em 1977, o empresário Faruk El-Katib, fundou em Curitiba, a Editora Grafipar.   

Sua revista masculina “Personal”, publicava além de fotos e contos sensuais, algumas HQs eróticas nacionais. Estes quadrinhos fizeram sucesso e a editora resolveu investir na produção nacional, lançando uma série de 'gibis de sacanagem', entre eles , a revista "Neuros" (1978-1979) - 'Terror Adulto em Quadrinhos'...




...que, seguindo uma das linhas iniciadas com sucesso pela Vecchi, trazia um terror mais urbano, e conectado com a 'realidade' nacional...





E, também, a revista “Próton” (1979), que misturava fantasia com ficção científica, na linha da famosa revista estrangeira "Heavy Metal".





1979 foi o ano em que a ditadura militar começou a cair. O  governo do general João Figueiredo, o último militar a ocupar o cargo no Brasil, resolveu ceder às pressões populares e conceder a chamada 'Abertura' , que entre outras coisas, afrouxou a censura, e permitiu a volta das publicações eróticas mais ousadas às bancas. Assim, quase todas as histórias produzidas na Grafipar, incluindo as de fantasia e de terror, tinham toques de erotismo, sem ser propriamente pornográficas. O editor de quadrinhos era o desenhista Cláudio Seto, e para a Grafipar foram atraídos Flavio Colin,  Sérgio Lima, Julio Shimamoto, Mozart Couto, Watson Portela, Rodval Matias, Roberto Kussumoto, Franco de Rosa, Sebastião Seabra, Fernando Bonini, e diversos outros.




Entusiasmados com o sucesso desta editora, vários desenhistas mudaram-se para Curitiba. Eles foram chegando e alugando casas próximas umas das outras, fundando na Vila Maria uma espécie de vila de quadrinistas.  A Grafipar também lançou muitos gibis de aventuras e infantis.  Mozart Couto desenhou os faroestes "Jackal", e "Kate Apache". Franco de Rosa lançou o guerreiro "Zamor", Watson Portela seu "Robô Gigante" em cores , e Claudio Seto seu "Super Pinóquio", retomando a linha manga infantil que começara na Edrel, nos anos 60.




A 'Era da Vecchi e da Grafipar' foi um grande momento para o Quadrinho Nacional de Terror, e para os autores e artistas de HQs do Brasil. Mas...

                    ... veremos no próximo capítulo....


CONTINUA...






                                      FONTES-


- Arquivos o autor

- Gonçalo Junior "Enciclopédia dos Monstros" (Ediouro 2008)

- Rudolf Piper em "O Grande Livro do Terror" (Argos, 1978)

- Enciclopédia dos Quadrinhos- Goida & André Kleinert (L&PM, 2011)


                                             WEB




- Guia dos Quadrinhos - https://www.guiadosquadrinhos.com/


- GIBÍS RETRÔ TÚNEL DO TEMPO - https://www.facebook.com/groups/1113556852667742


- Papel Digital -https://aquitemscan.blogspot.com/search/label/terror  


- Capitão Mistério Apresenta- https://www.sistemapersonalizado.com/misterio/index.htm


- Dimitri Kozma -Sem Freios- Youtube- https://www.youtube.com/watch?v=MVql7z6cMhQ


- Bigorna. net-

 https://bigorna.net/index.php?secao=artigos&id=1304899977


- NA-NU- https://nanu.blog.br/tag/hqs/


- Marcus Ramone- Universo HQ-

 https://web.archive.org/web/20230925192130/https://universohq.com/materias/a-trajetoria-das-hqs-de-terror-no-brasil/


-  Itaú Cultural- https://www.itaucultural.org.br/secoes/colunistas/quadrinista-expoe-traumas-brasil-outrora


- Carlos Gonçalves- Marca de Fantasia - https://www.marcadefantasia.com/ego/encartes-qi/ashq/ashq02/ashq02.pdf





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História das Histórias em Quadrinhos de Terror no Brasil - Anos 1970

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